A nova edição de Diálogos para el Desarrollo, realizada em Lisboa, reuniu Mário Centeno e Pedro Siza Vieira para uma reflexão sobre o posicionamento de Portugal perante as transformações económicas e geopolíticas que deverão marcar os próximos anos.
Sob o tema “Portugal perante a próxima década: visão e estratégia”, o encontro colocou em debate a competitividade da economia portuguesa, a capacidade de atração de investimento e o papel da Europa num contexto internacional de crescente fragmentação. A iniciativa foi organizada pela Management Activo e contou com o patrocínio da Crédito y Caución, BCD e Iberinform.
Talento e conhecimento como fatores de competitividade
Mário Centeno, ex presidente do Eurogrupo, ex ministro das Finanças e ex governador do Banco de Portugal, destacou o percurso de convergência da economia portuguesa com a União Europeia. Na sua análise, a educação e a estabilidade financeira e política têm sido determinantes para esta evolução, embora seja necessário prosseguir com reformas que reforcem a capacidade competitiva do país.
Lisboa apresenta, neste contexto, importantes vantagens na formação e atração de profissionais qualificados. A qualidade das universidades e das escolas de negócios da cidade foi apontada como um ativo capaz de apoiar a captação de empresas e investidores.
“As nossas escolas de negócios são muito boas e estão muito bem cotadas a nível europeu”, salientou Mário Centeno.
O custo crescente da habitação e dos espaços destinados às empresas poderá, contudo, limitar essa capacidade de atração. Segundo o economista, a subida dos preços residenciais e dos escritórios está a reduzir algumas das vantagens competitivas anteriormente associadas à capital portuguesa.
Novas áreas de investimento para Portugal
Pedro Siza Vieira, ex ministro de Estado, da Economia e da Transição Digital e atual sócio da PLMJ Advogados, identificou várias áreas em que Portugal poderá beneficiar das novas necessidades de investimento da Europa.
A defesa, os centros de dados associados à inteligência artificial, a aeronáutica e a indústria farmacêutica encontram se entre os setores com potencial para contribuir para o crescimento económico e para o aumento da produtividade nacional.
A necessidade de reforçar as capacidades europeias de produção e equipamento na área da defesa abre novas possibilidades de investimento. Em paralelo, a expansão da inteligência artificial exige infraestruturas com maior capacidade computacional, criando oportunidades para o desenvolvimento de centros de dados e de serviços tecnológicos associados.
Para Pedro Siza Vieira, Portugal dispõe de condições favoráveis para aproveitar este cenário. A estabilidade política, a inflação relativamente baixa, a redução da dívida pública e a consolidação das finanças públicas podem contribuir para aumentar a confiança dos investidores.
Uma Europa perante novas escolhas estratégicas
As consequências económicas das tensões internacionais ocuparam igualmente uma parte relevante do debate. Mário Centeno alertou para o impacto deste contexto na inflação, nos custos de financiamento de longo prazo e na sustentabilidade das contas públicas.
A fragmentação da economia mundial, o futuro da globalização, o reforço dos blocos económicos e a autonomia da Europa face aos Estados Unidos foram outros dos temas analisados. A reflexão incidiu ainda sobre a necessidade de uma estratégia europeia mais clara e de decisões públicas com maior capacidade de resposta às necessidades das empresas e da economia.
Em relação a Portugal, o encontro evidenciou a importância de conjugar estabilidade económica, talento qualificado e capacidade de investimento com reformas que reduzam os obstáculos ao crescimento e tornem os processos de decisão mais ágeis.
